Ashwagandha

Ashwagandha (Withania somnifera) é um arbusto usado há séculos na medicina ayurvédica indiana, hoje vendido como extrato padronizado de raiz, ou de raiz e folha, com foco em suporte ao manejo do estresse. É um dos fitoterápicos com mais ensaios clínicos randomizados por trás no mercado de suplementos, com evidência mais consistente para estresse, cortisol, sono e ansiedade, e evidência bem mais fraca para performance física e testosterona.

Suplemento não trata, não cura e não previne doença. O que segue é o que a evidência disponível mostra, com as devidas ressalvas.

Escrito por Equipe SetYou. Revisão técnica: Danielle Lima, Farmacêutica Clínica (CRF-102017). Publicado em 15 de julho de 2026.

O que é Ashwagandha

Ashwagandha é o nome popular de Withania somnifera, um arbusto da família das solanáceas, nativo da Índia, do norte da África e do Oriente Médio. Na medicina ayurvédica é classificada como "rasayana", categoria de plantas usadas tradicionalmente para revitalização.

O grupo de compostos de interesse são os withanolides, lactonas esteroidais concentradas principalmente na raiz da planta. A maior parte dos suplementos comerciais usa extrato de raiz. Alguns usam extrato de raiz e folha combinados, com perfil de withanolides diferente. A concentração de withanolides no extrato final varia bastante de produto para produto, o que explica boa parte da diferença de resultado entre marcas.

Para que serve Ashwagandha

Ashwagandha não é medicamento e não substitui tratamento médico. O uso mais estudado é como coadjuvante no manejo do estresse percebido e de marcadores fisiológicos ligados ao estresse, como o cortisol. Sono e ansiedade têm evidência de apoio, mas mais modesta. Performance física e testosterona são as áreas mais divulgadas em marketing e, ao mesmo tempo, as de evidência mais fraca.

Estresse e cortisol

Este é o uso com mais estudo clínico controlado. Em um ensaio com 64 adultos com histórico de estresse crônico, 300 mg de extrato de raiz duas vezes ao dia por 60 dias reduziu de forma significativa o cortisol sérico e os escores em escalas de estresse, comparado a placebo [1]. Outro ensaio, com um extrato diferente (240 mg ao dia), também observou queda do cortisol matinal e da DHEA-S após 60 dias [2]. Um terceiro estudo, com extrato padronizado a 2,5% de withanolides pelo método USP, encontrou redução do cortisol salivar e aumento da serotonina urinária em 60 dias de uso [3].

Ressalva honesta: uma revisão sistemática recente, somando sete estudos sobre cortisol, confirmou a queda média do hormônio, mas não encontrou efeito estatisticamente significativo sobre o estresse percebido pelos próprios participantes nos questionários [4]. O marcador biológico melhora de forma mais consistente do que a sensação subjetiva de estresse relatada pela pessoa.

Sono

Uma metanálise de cinco ensaios clínicos randomizados, com 400 participantes, encontrou efeito pequeno mas estatisticamente significativo sobre a qualidade geral do sono, mais pronunciado em quem tinha insônia diagnosticada, usava dose igual ou acima de 600 mg ao dia, por pelo menos 8 semanas [5]. Um ensaio clínico com 80 participantes, divididos entre voluntários saudáveis e pacientes com insônia, mostrou melhora na latência do sono e na eficiência do sono nos dois grupos, com efeito maior nos pacientes com insônia [6].

Ressalva honesta: o efeito é pequeno, e os próprios autores da metanálise apontam que faltam dados de segurança de longo prazo para confirmar o uso contínuo [5].

Ansiedade

Uma metanálise de 12 ensaios clínicos randomizados, com 1.002 participantes, encontrou redução significativa tanto da ansiedade quanto do estresse com o uso de ashwagandha em comparação a placebo, com relação dose-resposta favorável para estresse na faixa de 300 a 600 mg ao dia [7].

Ressalva honesta: os próprios autores classificaram a certeza da evidência como baixa, por causa da alta heterogeneidade entre os estudos incluídos [7]. Ashwagandha não é tratamento para transtorno de ansiedade diagnosticado, que tem manejo clínico próprio.

Extratos padronizados: por que a padronização de withanolides importa

Ashwagandha em pó bruto ou em cápsula não padronizada pode variar de forma significativa na quantidade de withanolides. É por isso que os estudos clínicos usam extratos padronizados, com concentração fixa e verificada do composto ativo por dose, e não a raiz em pó comum vendida sem controle de teor.

Os extratos padronizados mais estudados são diferentes entre si. Um é extrato só de raiz, processado sem álcool, padronizado para cerca de 5% de withanolides, base de boa parte dos estudos de estresse e bem-estar, incluindo o ensaio mais recente conduzido em gestantes [20]. Outro é um extrato aquoso de raiz e folha, com concentração mais alta de withanolides, testado em dose de 500 mg no estudo sobre ganho de força [8]. Um terceiro, de altíssima concentração, foi usado em dose bem menor, 240 mg ao dia, nos estudos sobre cortisol e testosterona citados nesta página [2][13]. Um quarto, padronizado a 2,5% de withanolides pelo método USP e combinado com piperina, também mostrou redução de cortisol e melhora de ansiedade em ensaio clínico [3].

Ressalva honesta: esses extratos não são intercambiáveis nem comparáveis só pelo peso em miligramas. Um suplemento com 600 mg de ashwagandha não padronizada pode entregar uma fração dos withanolides ativos de uma cápsula de 240 mg de um extrato de alta concentração. A padronização, mais do que a dose em miligramas, é o que determina se o produto tem chance real de repetir o que foi visto nos estudos.

Performance e força

Em um ensaio com 57 homens jovens em treino de força por 8 semanas, o grupo que usou 300 mg de extrato de raiz duas vezes ao dia teve ganho maior de força no supino e na cadeira extensora, além de maior aumento de massa muscular nos braços e no peito, comparado a placebo [9]. No estudo STAR, com um extrato de raiz e folha (500 mg ao dia) por 12 semanas, houve ganho maior de força no agachamento e no supino, e melhora na composição corporal [8]. Uma metanálise bayesiana de 12 estudos concluiu que ashwagandha tem efeito favorável sobre desempenho físico em geral, incluindo força, potência e capacidade cardiorrespiratória [10].

Ressalva honesta: os estudos são majoritariamente pequenos, feitos com homens jovens já inseridos em programa de treino estruturado, e não isolam o efeito da ashwagandha do efeito do próprio treino. Não substitui treino nem alimentação, funciona como possível coadjuvante dentro de um programa que já está em andamento.

Testosterona: o que a evidência realmente mostra

Ashwagandha é vendida com frequência como "booster" de testosterona, e essa é a área em que a evidência é mais fraca e mais inflada pelo marketing. Uma revisão sistemática de 32 estudos sobre ervas e testosterona em homens identificou a ashwagandha, junto com o extrato de feno-grego, como uma das poucas com algum efeito positivo, mas apenas 9 dos 32 estudos analisados no total mostraram aumento estatisticamente significativo [11]. Uma revisão sistemática específica sobre "testosterone boosters" comerciais classificou a ashwagandha como "possivelmente eficaz" em homens saudáveis, não em homens com hipogonadismo diagnosticado [12]. Em um ensaio cruzado com homens de 40 a 70 anos, acima do peso e com fadiga leve, um extrato de alta concentração (240 mg ao dia) aumentou testosterona salivar em 14,7% e DHEA-S em 18% comparado a placebo, sem diferença em cortisol, disposição ou bem-estar sexual entre os grupos [13].

Ressalva honesta: não existe evidência de que ashwagandha eleve testosterona em homens jovens e saudáveis com níveis normais do hormônio. O efeito, quando aparece, é mais consistente em homens de meia-idade ou mais velhos, com fadiga ou leve declínio hormonal relacionado à idade. Quem busca aumento expressivo de testosterona por razão clínica precisa de avaliação médica e exame de sangue, não de suplemento por conta própria.

Dosagem usual

A maioria dos ensaios clínicos usou entre 300 mg e 600 mg de extrato de raiz por dia, divididos em uma ou duas tomadas, por períodos de 8 a 12 semanas [1][3][9]. Extratos de alta concentração, como os usados nos estudos de cortisol e testosterona citados acima, usaram dose bem menor, 240 mg ao dia [2][13]. A dose certa depende do extrato e da concentração de withanolides, não existe um número único válido para "ashwagandha" em geral.

A dose adequada depende do perfil de cada pessoa. Na SetYou, a dosagem é definida a partir do questionário de saúde, com curadoria farmacêutica.

Contraindicações e interações

Esta é a parte que quase nenhum conteúdo sobre ashwagandha traz, e é a que mais importa. Ashwagandha não é um suplemento sem risco para todo mundo.

Fígado. Existem relatos publicados de alteração hepática associada ao uso de ashwagandha, e o ativo consta no LiverTox, o banco de dados do NIH que reúne substâncias com esse tipo de relato [14] [15]. É pouco frequente e costuma normalizar depois da suspensão, mas quem já tem doença no fígado deve evitar ou usar só com acompanhamento médico. Se aparecer cansaço fora do comum, urina escura ou pele amarelada durante o uso, suspenda e procure um médico.

Doença autoimune. Ashwagandha tem propriedades imunoestimulantes, documentadas em uma revisão sistemática que a lista entre os fitoterápicos com evidência mais robusta de ativação do sistema imune, por vias como receptores toll-like e NF-κB, com aumento de citocinas inflamatórias [16]. Em tireoidite de Hashimoto, lúpus, artrite reumatoide e outras condições autoimunes, esse estímulo pode piorar crises. Não usar sem liberação do médico que acompanha a condição.

Tireoide. Um ensaio clínico em pacientes com hipotireoidismo subclínico mostrou que ashwagandha normalizou TSH, T3 e T4 ao longo de 8 semanas [17], o que é favorável para quem tem a tireoide hipoativa, mas é exatamente o motivo de cautela para quem tem hipertireoidismo ou usa levotiroxina: o mesmo mecanismo que normaliza pode elevar T3 e T4 além do necessário. Em voluntários saudáveis, um estudo de segurança não encontrou alteração significativa na função tireoidiana [18], o que sugere que o efeito depende do ponto de partida da tireoide de cada pessoa. Quem tem qualquer condição de tireoide ou usa medicação para tireoide só deve usar com acompanhamento médico e exames de rotina.

Gestação. A medicina tradicional indiana descreve uso de ashwagandha em doses altas como abortivo, e órgãos regulatórios, incluindo a OMS, já sinalizaram essa preocupação. Uma revisão sistemática recente reavaliou essas fontes históricas e concluiu que boa parte da alegação vem de citações distorcidas sem validação na fonte primária, e que estudos toxicológicos em animais não mostraram toxicidade reprodutiva relevante nas doses usadas em humanos [19]. Um ensaio clínico de 2026, com gestantes no segundo trimestre usando 300 mg de extrato de raiz duas vezes ao dia por 12 semanas junto com tratamento padrão, não registrou eventos adversos nem alteração de função hepática, renal ou tireoidiana [20]. Ainda assim, é um único estudo, pequeno, feito só no segundo trimestre, sem dados sobre o primeiro trimestre, que é a janela mais sensível para risco de malformação. Por precaução regulatória e pela falta de dados robustos no primeiro trimestre e na amamentação, a SetYou não recomenda ashwagandha para gestantes e lactantes.

Sedativos e benzodiazepínicos. Ashwagandha tem efeito calmante e facilitador do sono, documentado nos próprios estudos de sono e ansiedade citados nesta página [5][6]. Usada junto com benzodiazepínicos, outros ansiolíticos, indutores de sono ou álcool, o efeito sedativo pode se somar, aumentando sonolência e risco de quedas. Revisões farmacêuticas independentes sobre o suplemento recomendam atenção a essa combinação [21].

Cirurgia programada. Pelo efeito sobre o sistema imune e pelo potencial sedativo, a orientação padrão para suplementos com esse perfil é suspender o uso de 1 a 2 semanas antes de qualquer cirurgia agendada, e avisar a equipe de anestesia sobre o uso.

Na SetYou essa checagem é automática: o motor avalia condições de saúde declaradas, medicamentos em uso, gestação e alergias antes de qualquer recomendação. É por isso que conseguimos dizer não quando ashwagandha não é indicado.

Perguntas frequentes

Ashwagandha faz mal ao fígado?

Na maioria das pessoas, não. Existem relatos de alteração hepática associada ao uso, pouco frequentes e reversíveis depois da suspensão, e os quadros mais significativos apareceram em quem já tinha problema no fígado [14] [15]. Quem tem histórico hepático deve evitar ou usar com acompanhamento.

Quem tem tireoide pode tomar?

Depende de qual alteração de tireoide. Em hipotireoidismo subclínico, um estudo mostrou que ashwagandha ajudou a normalizar TSH, T3 e T4 [17]. Já em hipertireoidismo, ou para quem usa levotiroxina, o mesmo efeito pode elevar os hormônios da tireoide além do necessário. Quem tem qualquer diagnóstico de tireoide precisa de acompanhamento médico antes de usar.

Qual a diferença entre KSM-66 e Sensoril?

KSM-66 é extrato só de raiz, com cerca de 5% de withanolides, testado principalmente em estudos de estresse e bem-estar geral [20]. Sensoril é extrato de raiz e folha, com concentração mais alta de withanolides, testado em dose menor no estudo sobre ganho de força [8]. São extratos diferentes, com processos de padronização diferentes, e não devem ser comparados só pelo peso em miligramas.

Ashwagandha aumenta testosterona?

A evidência é limitada e não sustenta a promessa que o marketing costuma fazer. Em homens de meia-idade com fadiga leve, um estudo mostrou aumento de testosterona salivar comparado a placebo [13]. Uma revisão sistemática sobre "testosterone boosters" comerciais classificou a ashwagandha como possivelmente eficaz só em homens saudáveis, não em quem tem hipogonadismo diagnosticado [12]. Não há evidência de efeito relevante em homens jovens com testosterona normal.

Pode tomar todo dia? Precisa de pausa?

Os estudos clínicos usaram uso contínuo de 8 a 12 semanas, sem protocolo de pausa testado. Não existe dado publicado sobre segurança de uso contínuo por mais de alguns meses, e os relatos de alteração hepática apareceram depois de semanas a meses de uso [14]. Reavaliação periódica com acompanhamento é mais prudente do que uso indefinido sem revisão.

Qual o melhor horário para tomar?

Os estudos variam: alguns usaram a dose à noite, voltados para sono, outros dividiram entre manhã e noite, para estresse ao longo do dia. Não há evidência que aponte um horário único como superior. Na SetYou, o horário é orientado conforme o objetivo de cada pessoa no questionário.

Referências

1 A prospective, randomized double-blind, placebo-controlled study of safety and efficacy of a high-concentration full-spectrum extract of ashwagandha root in reducing stress and anxiety in adults.

Indian Journal of Psychological Medicine, 2012

2 An investigation into the stress-relieving and pharmacological actions of an ashwagandha (Withania somnifera) extract: A randomized, double-blind, placebo-controlled study.

Medicine, 2019

3 A standardized Ashwagandha root extract alleviates stress, anxiety, and improves quality of life in healthy adults by modulating stress hormones: Results from a randomized, double-blind, placebo-controlled study.

Medicine, 2023

4 Dual impact of Ashwagandha: Significant cortisol reduction but no effects on perceived stress - A systematic review and meta-analysis.

Nutrition and Health, 2025

5 Effect of Ashwagandha (Withania somnifera) extract on sleep: A systematic review and meta-analysis.

PLoS One, 2021

6 Clinical evaluation of the pharmacological impact of ashwagandha root extract on sleep in healthy volunteers and insomnia patients: A double-blind, randomized, parallel-group, placebo-controlled study.

Journal of Ethnopharmacology, 2021

7 Does Ashwagandha supplementation have a beneficial effect on the management of anxiety and stress? A systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials.

Phytotherapy Research, 2022

8 Effects of an Aqueous Extract of Withania somnifera on Strength Training Adaptations and Recovery: The STAR Trial.

Nutrients, 2018

9 Examining the effect of Withania somnifera supplementation on muscle strength and recovery: a randomized controlled trial.

Journal of the International Society of Sports Nutrition, 2015

10 Effects of Ashwagandha (Withania somnifera) on Physical Performance: Systematic Review and Bayesian Meta-Analysis.

Journal of Functional Morphology and Kinesiology, 2021

11 Examining the Effects of Herbs on Testosterone Concentrations in Men: A Systematic Review.

Advances in Nutrition, 2021

12 Do "testosterone boosters" really increase serum total testosterone? A systematic review.

International Journal of Impotence Research, 2024

13 A Randomized, Double-Blind, Placebo-Controlled, Crossover Study Examining the Hormonal and Vitality Effects of Ashwagandha (Withania somnifera) in Aging, Overweight Males.

American Journal of Men's Health, 2019

14 Ashwagandha-induced liver injury: A case series from Iceland and the US Drug-Induced Liver Injury Network.

Liver International, 2020

15 Ashwagandha-induced liver injury-A case series from India and literature review.

Hepatology Communications, 2023

16 Identifying immunostimulatory herbal supplements that may flare autoimmune skin diseases: a systematic scoping review.

Lupus Science & Medicine, 2025

17 Efficacy and Safety of Ashwagandha Root Extract in Subclinical Hypothyroid Patients: A Double-Blind, Randomized Placebo-Controlled Trial.

Journal of Alternative and Complementary Medicine, 2018

18 Safety of Ashwagandha Root Extract: A Randomized, Placebo-Controlled, study in Healthy Volunteers.

Complementary Therapies in Medicine, 2021

19 A Systematic and Ethnobotanical Review of Ashwagandha's (Withania Somnifera) Teratogenic and Abortifacient Potentials.

Phytotherapy Research, 2025

20 Efficacy and safety of Ashwagandha (Withania somnifera) root extract in pregnant women: a prospective, randomized, comparative, open-label, 12-week study.

Frontiers in Global Women's Health, 2026

21 Ashwagandha supplements.

The Medical Letter on Drugs and Therapeutics, 2021

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Este conteúdo é informativo e não substitui orientação de profissional de saúde. Suplementos alimentares não tratam, não curam e não previnem doenças.