Feno Grego
Feno-grego (Trigonella foenum-graecum) é uma planta usada há séculos como tempero e na medicina tradicional, hoje vendida principalmente como suplemento para libido e testosterona. Os estudos clínicos existem, mas são poucos, pequenos e boa parte foi financiada pelo próprio fabricante do extrato testado. Antes de usar, vale conhecer as contraindicações que a maioria do conteúdo sobre feno-grego não traz.
Suplemento não trata, não cura e não previne doença. O que segue é o que a evidência disponível mostra, com as devidas ressalvas.
Revisão técnica: Danielle Lima, Farmacêutica Clínica (CRF-102017). Atualizado em 15 de julho de 2026.
Feno Grego
O feno-grego (Trigonella foenum-graecum Linn.), é uma planta medicinal antiga amplamente utilizada em várias partes do mundo como erva, tempero e na medicina tradicional. Isso porque seus efeitos promotores da saúde foram citados na Ayurveda e na medicina tradicional chinesa. As ações farmacológicas do feno-grego são atribuídas a diversos fitoconstituintes.
Em relação a sua função mais conhecida, ou seja, o aumento da libido, há evidências clínicas bem estabelecidas que sugerem que os andrógenos desempenham um papel vital na disfunção sexual, levando em consideração os achados publicados do feno grego sobre o aumento dos níveis sanguíneos de testosterona e melhora da função e desejo sexual.
Referências:
Nagulapalli Venkata KC, Swaroop A, Bagchi D, Bishayee A. Mol Nutr Food Res. 2017 Jun;61(6). doi: 10.1002/mnfr.201600950. Epub 2017 Apr 27. PMID: 28266134.
Estudos sobre feno grego
Libido em mulheres
Os hormônios que influenciam a sexualidade feminina são os estrogênios e andrógenos. Por aumentar a testosterona livre, o feno grego tem sido cada vez mais estudado. Vale ressaltar que esse aumento é modesto e dentro dos níveis normais, e também está correlacionado com a diminuição significativa encontrada nos níveis de SHBG (uma proteína que, quando está mais alta, torna a testosterona menos livre). Além disso, há dados crescentes apontando para um possível papel dos andrógenos nos neurotransmissores dopamina e serotonina, e a dopamina desempenha um papel essencial na modulação do desejo sexual.
Um estudo duplo-cego, randomizado e controlado por placebo foi realizado em 80 mulheres entre 20 e 49 anos. Os participantes foram randomizados para uma dose oral de um extrato padronizado de sementes de T. foenum-graecum (presente no libifem) na dose de 600 mg/dia ou placebo durante dois ciclos menstruais. Como resultado, a administração de Feno Grego aumentou significativamente os níveis de estradiol, de testosterona livre e, simultaneamente, reduziu os níveis de SHBG. O extrato de Feno Grego mostrou-se eficiente para cinco marcadores da função sexual feminina: Melhora o aspecto “imaginativo” da sexualidade; aumenta o desejo e a excitação sexual; permite um maior controle na “condução” do relacionamento sexual; facilita uma relação sem inibições com o parceiro; proporciona um orgasmo mais intenso ou mais controlado. A frequência da atividade sexual das mulheres que tomaram Feno Grego, passou de uma a duas vezes por mês para uma vez por semana, em média.
Além disso, um outro estudo demonstrou que o extrato da semente de Trigonella foenum graecum possui um impacto positivo na melhora da função sexual, tanto no desejo quanto na excitação sexual em mulheres em idade fértil com baixa função sexual.
Referências:
Rao A, Steels E, Beccaria G, Inder WJ, Vitetta L. Phytother Res. 2015 Aug;29(8):1123-30. doi: 10.1002/ptr.5355. Epub 2015 Apr 24. PMID: 25914334.
Shamshad Begum S, Jayalakshmi HK, Vidyavathi HG, Gopakumar G, Abin I, Balu M, Geetha K, Suresha SV, Vasundhara M, Krishnakumar IM. Phytother Res. 2016 Nov;30(11):1775-1784. doi: 10.1002/ptr.5680. Epub 2016 Jul 13. PMID: 27406028.
Steels E, Steele ML, Harold M, Coulson S. Phytother Res. 2017 Sep;31(9):1316-1322. doi: 10.1002/ptr.5856. Epub 2017 Jul 14. PMID: 28707431.
Libido em homens
Um estudo duplo-cego, controlado com placebo e randomizado selecionou 60 homens saudáveis com idades entre 25 e 52 anos, sem disfunção erétil e randomizados para uma dose oral (dois comprimidos por dia - 600 mg de Feno Grego por dia) ou placebo por 6 semanas. Aplicou- se um teste que utiliza uma escala internacional para mensuração da função sexual masculina segmentada por cinco componentes: função erétil, função orgástica, desejo sexual, satisfação com a relação sexual satisfação com a vida sexual como um todo. Os indivíduos que fizeram uso da Feno Grego, obtiveram pontuação total nos cinco parâmetros. O Feno Grego teve um efeito global positivo sobre os aspectos fisiológicos da libido. Em particular, houve um aumento significativo nos subdomínios de excitação sexual e orgasmo. Teve também um efeito positivo na qualidade de vida e no aumento da força muscular, energia e bem-estar, mas não teve efeito sobre o humor ou sono.
Referências:
STEELS E.; RAO A.; VITETTA L. Phytother Res. 2011 Sep;25(9):1294-300. doi: 10.1002/ptr.3360. Epub 2011 Feb 10. PMID: 21312304.
Alívio dos sintomas da menopausa
Um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo investigou o efeito do extrato de feno-grego em desconfortos da perimenopausa (período de transição para a menopausa) e sua influência hormonal, além da sua segurança. Nesse estudo, realizado com 48 mulheres saudáveis, houve uma melhora significativa nos escores somáticos, psicológicos e urogenitais no grupo que recebeu o feno grego, especialmente para ondas de calor, suores noturnos, depressão e insônia. Além disso, as análises hormonais adicionais revelaram um aumento nas concentrações séricas de estradiol, testosterona livre e progesterona, além de uma diminuição significativa nas concentrações de FSH e SHBG. Assim, a suplementação de feno grego ofereceu uma redução significativa nos efeitos vasomotores e depressão em mulheres na perimenopausa, sem quaisquer efeitos adversos.
Referências:
Khanna A, John F, Das S, Thomas J, Rao J, Maliakel B, Im K. J Food Biochem. 2020 Dec;44(12):e13507. doi: 10.1111/jfbc.13507. Epub 2020 Oct 6. PMID: 33025616.
Diabetes mellitus
O diabetes mellitus é um distúrbio metabólico causado por falta ou ação ineficaz da insulina. Nesse sentido, a Organização Mundial da Saúde (OMS) listou um total de 21.000 plantas que são usadas para fins medicinais em todo o mundo. Entre elas, mais de 400 plantas estão disponíveis para o tratamento da diabetes, entretanto, apenas um número pequeno dessas plantas passou por avaliação científica para avaliar a sua eficácia, e a Trigonella foenum-graecum é uma delas.
Os resultados combinados de uma meta-análise realizada com 10 artigos (12 estudos) mostraram que o feno-grego possui efeito hipoglicemiante e redutor de colesterol, sem nenhum registro de toxicidade hepática e renal, e os principais efeitos colaterais foram desconfortos gastrointestinais.
Além disso, um estudo clínico randomizado controlado por placebo no qual 114 pacientes diabéticos do tipo 2 com o objetivo de investigar o efeito do feno grego no perfil lipídico, mostrou que o grupo tratamento (que recebeu feno-grego) apresentou nível de colesterol total significativamente menor em 13,6% do que o grupo controle (que recebe metformina), mostrando que a utilização de feno-grego teve efeitos pronunciados na melhora do metabolismo lipídico em pacientes diabéticos do tipo 2, e sem efeitos adversos, podendo fornecer novas alternativas para o manejo clínico desta condição.
Referências:
Geberemeskel GA, Debebe YG, Nguse NA. J Diabetes Res. 2019 Sep 5;2019:8507453. doi: 10.1155/2019/8507453. PMID: 31583253; PMCID: PMC6748210.
Gong J, Fang K, Dong H, Wang D, Hu M, Lu F. J Ethnopharmacol. 2016 Dec 24;194:260-268. doi: 10.1016/j.jep.2016.08.003. Epub 2016 Aug 2. PMID: 27496582.
3 Herbal Medicines for Diabetes Management and its Secondary Complications - PubMed (nih.gov)
Kumar S, Mittal A, Babu D, Mittal A. Curr Diabetes Rev. 2021;17(4):437-456. doi: 10.2174/1573399816666201103143225. PMID: 33143632.
Contraindicações e interações
Gestação. Feno-grego não deve ser usado na gravidez. Revisões científicas listam a planta entre as de uso desaconselhado em gestantes, por atividade estimulante do útero e efeito teratogênico documentado em estudos pré-clínicos [A] [B]. A planta também é usada tradicionalmente para estimular contrações, o que reforça a cautêla fora de orientação médica.
Diabetes e remédios para glicose. Os próprios estudos citados acima mostram que o feno-grego reduz glicose e colesterol. É um efeito real, e é exatamente por isso que ele pode somar com insulina e outros antidiabéticos, aumentando o risco de hipoglicemia. Uma revisão recente sobre efeitos adversos do feno-grego aponta hipoglicemia e interação medicamentosa entre as reações relatadas [C]. Quem usa remédio para diabetes precisa de acompanhamento antes de somar feno-grego ao tratamento.
Anticoagulantes. O feno-grego prolongou o tempo de coagulação em testes de laboratório e está entre as plantas associadas a sangramento em quem usa varfarina e outros anticoagulantes [E] [F] [G]. Não é indicado combinar sem acompanhamento médico.
Alergia a amendoim e leguminosas. Feno-grego é da família Fabaceae, a mesma do amendoim, grão-de-bico e soja, e existe reação cruzada documentada, incluindo caso de anafilaxia [B] [H]. Quem tem alergia a essas leguminosas deve evitar.
Hormônios e câncer sensível a hormônio. O feno-grego eleva estradiol e testosterona livre, como mostram os próprios estudos de libido citados acima. Em laboratório, o efeito sobre células de câncer de mama sensíveis a hormônio é conflitante: um extrato estimulou a proliferação dessas células [I], outro induziu a morte delas [J]. Diante dessa divergência, quem tem histórico de câncer sensível a hormônio deve conversar com o oncologista antes de usar.
Cirurgia programada. Pelo mesmo efeito sobre a coagulação, revisões sobre sangramento e suplementos recomendam suspender o feno-grego cerca de duas semanas antes de qualquer cirurgia [G].
Cheiro de xarope de bordo no suor e na urina. Efeito curioso e inofensivo: compostos do feno-grego (a sotolona) podem dar ao suor, à urina e até ao leite materno um odor parecido com xarope de bordo, o mesmo cheiro característico de uma doença metabólica rara que leva esse nome. Já foi descrito em revistas médicas desde a década de 1980 e confirmado em revisão recente [C] [D]. Não indica nenhum problema de saúde, mas vale saber para não se assustar.
Na SetYou essa checagem é automática: o motor avalia condições de saúde declaradas, medicamentos em uso, gestação e alergias antes de qualquer recomendação. É por isso que conseguimos dizer não quando feno-grego não é indicado.
Perguntas frequentes
Feno-grego aumenta testosterona de verdade?
Os estudos mostram um aumento, mas modesto e dentro da faixa normal, não um efeito hormonal forte. As amostras são pequenas e boa parte da pesquisa foi financiada pelo fabricante do extrato testado. É um resultado real, porém limitado.
Grávida pode tomar feno-grego?
Não. Feno-grego está entre as plantas de uso desaconselhado na gestação, por efeito estimulante sobre o útero e potencial teratogênico documentado em estudos.
Quem toma remédio para diabetes pode usar feno-grego?
Só com acompanhamento médico. O feno-grego reduz glicose, e essa redução pode somar com insulina ou outros antidiabéticos e causar hipoglicemia.
Feno-grego dá algum efeito colateral estranho?
Sim, e é inofensivo: pode deixar o suor e a urina com cheiro de xarope de bordo. É um composto natural da planta, a sotolona, documentado desde os anos 1980, e não indica nenhum problema de saúde.
Quem é alérgico a amendoim pode tomar feno-grego?
Não é recomendado. Feno-grego é da mesma família botânica do amendoim, do grão-de-bico e da soja, e já foram registrados casos de reação alérgica cruzada, incluindo anafilaxia.
Feno-grego funciona igual para homens e mulheres?
Os estudos avaliam desfechos diferentes: em mulheres, o foco é desejo e função sexual; em homens, função erétil e composição corporal. Nos dois casos, o efeito é descrito como modesto pelos próprios autores dos estudos.
Referências desta seção
A Is it safe to consume traditional medicinal plants during pregnancy?
B Toxicological properties of fenugreek (Trigonella foenum graecum)
Food and Chemical Toxicology, 2016
C Exploring the Adverse Effects of Fenugreek in Humans: A Scoping Review
Iranian Journal of Medical Sciences, 2026
D "Maple-syrup" urine odor due to fenugreek ingestion
New England Journal of Medicine, 1981
E Potential interactions between alternative therapies and warfarin
American Journal of Health-System Pharmacy, 2000
F An in vitro anticoagulant effect of Fenugreek (Trigonella foenum-graecum) in blood samples of normal Sudanese individuals
Sudanese Journal of Paediatrics, 2013
G Dietary supplements and bleeding
Proceedings (Baylor University Medical Center), 2022
H Fenugreek Anaphylaxis in a Pediatric Patient
I In vitro estrogenic activities of fenugreek Trigonella foenum graecum seeds
Indian Journal of Medical Research, 2010
J Differential effects of soybean and fenugreek extracts on the growth of MCF-7 cells
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